Mãe Lilian de Iemanjá

(mãe de santo fundadora)

 

Meu nome é Lilian, sou mãe de 3 lindas criaturas divinas (Liliane, Luane e João), casada e muito feliz. Filha de Iemanjá, umbandista há 22 anos e mãe de santo.

 

Nunca almejei ser mãe de santo, entretanto, minha história e os sentimentos que carrego hoje no peito me faz perceber que sempre caminhei para este encontro, mesmo sem perceber.

 

O medo da responsabilidade, do comprometimento e até com possíveis incômodos me fizeram fugir disso por muitos anos. Desde pequena diziam que eu era sonâmbula. Mas nunca fui. Sentava na cama para conversar com meus “amigos imaginários” e também sofria muitas vezes pelas primeiras conversas. Imagine uma criança de 8 anos deitada para dormir e uma voz lhe chamando pelo nome. Eu cobria meu rosto com a coberta e bem devagarinho espiava para encontrar quem estava a falar comigo. Pensava as vezes que seria meu próprio pai que ficava na sala até tarde vendo TV, então procura ver se ele não estava pela fresta da porta do meu quarto. Minhas duas irmãs sempre dormiam e eu ficava a matutar com as vozes.

 

Lembro claramente de uma vez pensar que tinha ladrão em casa e eu fingi que estava dormindo para que não me pegassem acordada. Hoje rio só de lembrar a cena, mas sei que foram momentos de pavor. Conforme eu crescia, percebia que a voz não era externa, ou seja, não era uma voz falada e ouvida pelos meus ouvidos, mas sim uma voz dentro da minha cabeça, uma diferente da outra, como se fosse 

a voz da pessoa mesmo.

 

Existem alguns episódios desses e, que quem sabe um dia eu transcreva, para que meus netos possam conhecer. Um deles, intrigante, foi quando meus pais, eu e minhas irmãs íamos viajar para Blumenau, ver minha avó e depois passar alguns dias na praia de Navegantes, na cada da tia Diza. Estávamos sentados na mesa, por volta de 6h da manhã e eu conversava ativamente com meu amigo “sem nome”, sem mencionar uma só palavra, apenas na mente. Então eu disse à ele que ele não existia, que eu devia ser uma criança excepcional. Ele me disse que iria dar três batidas na porta de entrada da cozinha, para que eu acreditasse nele. Eu apenas sorri e não acreditei. As três batidas soaram como um alívio ao meus ouvidos e ao meu coração, porém, minha mãe que sentada à mesa comia sua farinha de milho com leite (tem gente que gosta! Hahaha), arregalou os olhos e disse “Meus Deus, quem é que está batendo na porta se não tem ninguém?”. O silêncio tomou conta do ambiente e na minha mente quem tomou conta foram as gargalhados do S. Tata Caveira, exú que me acompanha e considero meu melhor amigo. 

 

E assim foi minha infância e adolescência. Lembro de entrar nos terreiros em que minha mãe me levava e conversar com as entidades sem mesmo o médium abrir a boca. Nem eu abria a minha boca para contar o que acontecia, pois eu já era estranha, imagine onde eu iria parar se contasse o que acontecia... manicômio. Meu pai sempre foi católico. Ou melhor, dizia que era. Não frequentava nenhuma religião, mas certamente sempre temeu a Deus. Digo aos meus filhos e a quem quer que seja, não devemos temer a Deus, temos que respeitá-lo e amá-lo como a todos os irmãos. Temor não é bem a palavra que representa nossa relação com Deus, eu substituo o temor por amor. Amar Deus é muito mais do que ter medo Dele. Amar a Deus é ter consigo a certeza de que não estamos aqui por acaso e que nossa caminhada é um presente divino de Deus, especialmente para cada um de nós. Então que saibamos aproveitar da maneira correta.

 

Meu pai nos induziu a seguir a Igreja Católica, mesmo minha mãe sendo Evangélica quando se casou com ele. Ela congelou a sua fé desde então.

 

Aos 16 anos eu era catequista da Igreja Católica. Batizada, 1ª. Comunhão e Crisma sacramentados, passei a ensinar o que havia aprendido. Hoje entendo que aprendemos mais quando ensinamos alguém do que quando somos ensinados e naquela época foi o que aconteceu. Comecei a questionar tudo o que não compreendia. Muitas das minhas perguntas eram respondidas com um simples “são os 

mistérios da fé". Jamais falarei mal de qualquer religião, mas naquele momento eu precisava de mais respostas.

 

Cansada de procurar dentro da igreja na qual eu frequentava assiduamente, comecei uma peregrinação entre as religiões. Sem participar ativamente, mas assistindo as cerimônias para identificar onde eu me sentiria melhor. Meu objetivo era entrar e admirar. Porém, a avaliação seria analisar como eu sairia. O local que eu saísse com mais amor, mais serenidade, ali eu ficaria. Passei por várias religiões, até missa em alemão eu ouvi. Gritei “Aleluia” com os irmãos evangélicos, local onde a fé é fervorosa e senti as pessoas em grande entrega espiritual e devoção à Deus. Mas não saí de lá melhor do que entrei, embora acredito que seja, como todas as outras, uma 

ótima religião.

 

Visitei a Adventista, Batista, Assembleia de Deus, Universal do Reino de Deus, Mórmon, o salão das Testemunhas de Jeová, entre tantas outras. Destas, me decepcionei apenas com uma, que me fez sair de lá muito brava. Enfim, o que não é bom pra mim, pode ser para os outros. Depois que visitei os lugares mais comuns ainda não tinha encontrado o lugar ideal, aquele que tocasse meu coração. Então resolvi partir para as religiões afro-brasileiras. Dispensando maiores detalhes para as religiões visitadas, vou me ater a descrever meu encontro com a Umbanda.

 

Minha irmã mais velha tinha iniciado a pouco tempo num terreiro de Umbanda em São José dos Pinhais. Então fui lá conhecer, companhada de um primo meu, hoje também umbandista. Ao entrar, já na porta, senti uma cortina quente em minha volta, eis que olho para o lado e vejo um monte de imagens escuras, velas pretas, vermelhas... e minha mente já me prega a primeira peça: “que marmota é essa? Quem é que acredita nestas coisas? É o fim do mundo mesmo...”. Era o quarto dos Exús. Alguém gritou comigo e disse “mais respeito com aquilo que te pertence”. Voz conhecida, de anos atrás. Eu ainda não sabia quem era o dono daquela voz, mas certamente era meu amigo de anos atrás. Fiquei quieta sem entender nada mas decidi entrar e ver mais.

 

Entrei e continuei minhas observações. Vi um altar com os santos católicos, pessoas vestidas apenas de branco com uma faixa na cintura de cores vibrantes. Cada um tia a sua cor na faixa. Colares no pescoço, gente deitando na frente do altar, gente beijando as mãos uns dos outros e sorrisos de felicidade. Me sentei e aguardei o início da cerimônia. Pessoas pegavam uma senha que eu nem sabia qual a serventia. Perguntaram se eu iria consultar. Não sabia o que era, então disse que não.

 

Um cheiro maravilhoso tomava conta do lugar. Um misto de perfume com cheiro de coisa queimada. Era o defumador que estava sendo preparado. Lembro que de início o cheiro me pareceu estranho, mas ao respirar por mais alguns minutos aquele cheiro me transcendeu e comecei a ver as coisas ali dentro já com outros olhos. Como sempre fui desconfiada, cheguei a pensar se não havia alguma droga ilícita sendo queimada para alucinar a galera no geral... hehehe, hoje dou risada dos pensamentos que eu tinha, mas me perdoem a sinceridade em contar as peripécias de uma jovem de 16 anos pisando pela primeira vez num terreiro de Umbanda.

 

Começou o movimento! Algumas pessoas tocavam uns chocalhos barulhentos, feitos apenas de lata! Imaginei que poderia ser falta de dinheiro para comprar um bom chocalho, mas hoje não vivo sem a vibração do adejá. Começaram os cantos e os atabaques. A partir daí entrei em constante duelo com tudo o que eu via e ouvia, tanto dos encarnados que ali cantavam, quanto dos amigos espíritos que eu 

já ouvia. Não fazia ideia de que os espíritos eram espíritos, ou seja, para mim ainda eram coisas da minha cabeça.

 

Orixás foram sendo chamados e de todos, só conhecia Iemanjá. Lembro de ir na casa de uma policial, amiga do meu pai (que também era policial) e na sala nós aguardávamos ela que estava se despedindo do marido antes de sairmos, pois eles iriam trabalhar e eu ficaria na escola. Na sala de estar havia um quadro de Iemanjá, daquele tradicional. Eu, hipnotizada, perguntei ao meu pai se ele conhecia aquela moça bonita. Ele disse que era Iemanjá. Então comecei as perguntas... mas para minha infelicidade, ele matou a minha curiosidade na raiz, dizendo que não era nada, apenas um quadro pintado. 

 

A imagem do quadro da sala da policial e as músicas que eram cantadas dentro do terreiro se uniram. Senti a leveza de quando estávamos dentro da água do mar, o cheiro da água salgada e sua imensidão. 

 

Cada canto que iniciava, a vó me falava o nome do espírito. Na época eu chamava a vó Benta de mãe, pois ela me chamava de “fia”, então eu retribuía na mesma entonação. Eu não piscava e tremia de frio. Então percebi que minhas mãos suavam e como poderia estar sentindo frio? Encerraram os trabalhos e anunciaram um intervalo para então retornarem com os trabalhos da “esquerda”.

 

Eu não entendia nada, mas a palavra esquerda soou como um tambor nos meus ouvidos. Nesta hora, eu desafiei a Umbanda pela segunda vez, pois a primeira foi aos 8 anos. Disse aos espíritos que me acompanhavam que tudo o que estavam a me explicar poderia ser algo da minha cabeça. Eu disse que se isso ali tudo era verdade, algum dos espíritos encarnados viria falar comigo, incorporado em 

algum médium. Essa seria a minha comprovação.

 

O trabalho iniciou com cantos específicos e veio ao terreiro um espírito de mulher, no pai de santo da casa. Era a contente Maria Padilha das Almas, que com sua dança e encantos agradava a todos no local. Ela parou e olhou para trás, dizendo que queria conversar comigo, me levou até seu “canto” e lá me disse que eu estava ali para procurar um lugar para me encontrar. Dúbia a mensagem, mas foi exatamente o que ela me disse. Eu estava realmente procurando um encontro comigo mesma. Ela relatou a minha caminhada nas outras casas e também a minha dúvida com tudo o que estava acontecendo naquele lugar. Pediu que eu levantasse e deu ordens para os meninos que estavam nos atabaques. Uma linda música cigana começou a tocar e eu sem entender nada sumi do mapa! Não era mais eu, pois rodava com trejeitos sensuais e suaves, até que eu tentei segurar os movimentos para tomar pé da situação.

 

Foi a pior coisa que eu fiz! O que era uma dança à duas, virou uma luta de boxe! Devo ter nocauteado alguns filhos daquela corrente, pois lembro de cair, levantar, derrubar pessoas, e por aí afora.

 

Depois de uma grande luta, Maria Padilha me olha e pergunta: “acredita agora mulher?”. Respondi com um simples e sonoro “acredito!”. Para selar a noite ela me fala que os “absurdos da cabeça não são absurdos, somos nós falando com você”.

 

Não levou 1 mês eu estava de branco na gira. A partir daí é um novo capítulo da minha vida, pois antes eu era a maluca rotulada por mim mesma e passei a ser uma jovem querendo viver Umbanda.

 

Em outra oportunidade e momento de inspiração, escreverei mais. Quem sabe um dia um neto meu se inspire ou ao menos alguém leia isso e saiba que não é maluco, como eu achei que fosse.

 

Saravá.

Mãe Lilian de Iemanjá

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